Os raios de um sol primaveril concediam às ruas amplas e elegantes um tom jovial, agraciando assim a portentosa cidade com uma aparência pueril. Todo um manto de cores salpicava os olhos de quem passeava naquela manhã pela grande avenida: o rosa delicado dos rebentos das árvores; o verde de uma relva alimentada pela chuva fresca; as manchas castanhas dos pardais em constante azáfama; o contraste dos cartazes publicitários, parasitas das paredes graníticas de imponentes edifícios. Neste cenário se movia a massa humana, imparável e em constante mutação. Carros descolavam, borrões de um vermelho vivo, faíscas de um prateado limpo ou sombras deslizantes de elegante negro. A câmara, austera e estóica erguia-se no topo de todo este caos fervilhante, imune e desdenhosa da vida que pulsava em seu redor, senhora de seu nariz e soberana de todos.
A multidão que, em fiapos de gentes, fluía para baixo ou para cima da Avenida dos Aliados, não possuía rosto, nem forma. Como um mar bravio e desejoso de lançar contra a costa as suas ondas, também toda aquela humanidade se encontrava prenhe de vida, de energia, de propósito. À luz matinal resplandeciam as vestes coloridas de jovens casais passeando num enlevamento terno; o fato sóbrio do executivo sempre calculista agarrado à sua mala, procurando com olhos de rapina onde pousar do seu voo para comer, barato mas bom. Toda uma horda de donas de casa percorria metódicamente o calçado floreado de granito e calcário, ónix e marfim. Preto e branco.
O meu preto e branco, companheiros de um filho invicto da Invicta guiavam-me nessa manhã, dançando nos padrões simples do pavimento. Não tinha propósito. Amorfo, deixava-me ir ao sabor da corrente, vagueando vagarosamente e olhando. Simplesmente olhava. Olhava o meu mundo, o meu universo. Observava o palco onde mais não era que um figurino no meio de tantos outros. Fitava sem contudo registar a birra de um filho irrequieto, louco por uma chance de rebolar no relvado, por entre os canteiros. Indiferente aos protestos do rapaz, a mãe entretinha-se com as amigas numa das vários fileiras de mesas que invadiam o passeio e comprimiam a circulação em redor. De mesa em mesa deixei o olhar vaguear, procurando demoradamente absolutamente nada em cada rosto, sentindo curiosidade alguma por mergulhar nas teias em que tanta vida se emaranhava.
O meu preto e branco, também eles de tal modos entrelaçados que viravam cinzento, e de cinzento me toldavam os olhos, e de cinzento me tingiam a alma. A cor à minha volta era algo a que não podia aceder. As minhas cordas estavam partidas, quedando-se em silêncio enquanto tudo à minha volta vibrava um única palavra. No canto dos melros, no arrolhar das pombas se sentia um sussurro. A cacofonia que me assaltava, chegava-me aos ouvidos cavalgando numa brisa atrevida que deslizava por entre o cerco apático que me envolvia os sentidos, e impedia de tocar, eu também, e com as minhas notas elevar aos céus essa única palavra que a todos nos unia: vida!
Demasiada vida demasiado perto. Pudera eu beber de tamanha fonte de vivências sem ter de existir, pudera eu viver os romances cochichados excitadamente pelas estudantes aos magotes. O romance, a paixão, a loucura...
E a dor. Algures no coro de vozes se ergeu uma desarmonia, o grito silencioso do desespero e da angústia. Mais uma vez a chaga se abria, rompendo os frágeis pontos que lhe tinha cozido, rasgando as ténues pontes numa mente que sarava já. Demasiada vida, demasiado perto.
Obrigado pelo teu add, e pelo apoio à loja!!
Deves andar nas nuvens nestes dias...depois de teres visto Priest dar o grande concerto k deu!!
Abraço
Pedro
Metal Militia